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Antonio LarghiCleide: cuidados na hora de diagnosticar o transtorno
Sabe aquele funcionário brilhante, que tem sempre idéias muito criativas e não pára de bater os dedos sobre a mesa quando está ao telefone, faz três coisas ao mesmo tempo, mal escuta você falar e já dá uma resposta e fica possesso quando sofre uma crítica ao trabalho? Sem dúvida, ele é inteligente, mas comete pequenos erros freqüentemente, demora para achar um documento em sua mesa, tamanha é a desorganização. Pois é, ele é um sério candidato a ter Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), também chamado simplesmente de Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA). Um distúrbio cada vez mais diagnosticado que acomete pelo menos 7% da população mundial. E merece toda a atenção de gestores e executivos de RH.

Até início dos anos 80, acreditava-se que esse transtorno, comum em crianças e adolescentes, era superado na entrada da vida adulta. No entanto, a partir de estudo dessa década, percebeu-se que cerca de 65% das crianças que apresentavam esse problema continuavam com alguns dos sintomas do TDAH na vida adulta. Atualmente, estima-se que de cada cinco adultos em tratamento de outros distúrbios psiquiátricos, um apresenta TDAH.

Segundo Cleide Heloísa Partel, psicóloga com especialização em terapia cognitiva comportamental, familiar sistêmica e adolescente, o problema é que a maioria dos gestores desconhece esse transtorno - que pode prejudicar tanto a carreira do funcionário portador de TDAH quanto a própria empresa, uma vez que ela não aproveita em plenitude o potencial desse profissional.

Sem um diagnóstico correto, segundo a especialista, acaba-se tratando apenas as comorbidades e não o problema original, no caso, o transtorno em si. Comorbidades são todas as conseqüências do distúrbio tais como depressão, estresse, ansiedade generalizada, fobia, pânico, transtorno bipolar, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), entre outros. "Muitas vezes, a pessoa trata a depressão, mas não tem resultado a longo prazo porque a questão é outra. Então, voltam os sintomas e a origem do transtorno continua a mesma", explica Cleide. Pesquisas revelam que entre os adultos que apresentam TDAH, 70% deles têm comorbidades e, destes, 97% manifestam aproximadamente quatro tipos delas.

Há quem acredite que, hoje em dia, assoberbados com um volume de informação jamais visto na história da humanidade - solicitação em celulares, e-mails, internet, TV, rádio etc - qualquer pessoa pode apresentar algum sintoma de TDAH: dispersão, dificuldades de concentração, ter inúmeros projetos em andamento e muitos inacabados. Mas não se trata apenas de um comportamento "contemporâneo".

O TDAH é um transtorno neurobiológico crônico, na sua grande maioria de origem genética fruto de um funcionamento neurobiológico diferente. "Existe um hipofuncionamento do córtex pré-frontal e um hiperfuncionamento do sistema límbico. O córtex pré-frontal estabelece uma relação com o sistema límbico: quando este fica hiperativo, as emoções tendem a tomar 'posse' da pessoa. Isso acontece quando o córtex pré-frontal está em hipofuncionamento, como no caso do TDAH", descreve a psicóloga.

O diagnóstico de TDAH é clínico, feito a partir do estudo do perfil do paciente e seus sintomas. Normalmente, o profissional com TDAH passa pelas mesmas dificuldades que teve no período escolar. E o que é pior: pode trazer todo um histórico negativo, já que por sua dispersão pode ter sido chamado de preguiçoso, incompetente, indisciplinado, 'temperamental', alterando sua auto-estima.

A boa notícia é que existe tratamento para quem possui o TDAH. A partir do diagnóstico feito por um profissional especializado, é possível combinar psicoterapia com medicação - quando necessário - para que a pessoa aprenda a lidar com seus limites e com o seu potencial. Os medicamentos mais utilizados são a Ritalina e o Concerta, ambos à base do estimulante metilfenidato e que não causam dependência. "Não há perigo quando devidamente supervisionado; pelo contrário, estudos comparativos mostram que os grupos tratados com esse tipo de medicação tiveram menor incidência de uso de drogas, em especial a cocaína, do que nos grupos não tratados", conta Cleide.

Para André Lima, portador de TDAH, gerente de uma instituição financeira e professor da Universidade Mackenzie, de São Paulo, uma boa maneira de as empresas ajudarem os profissionais com esse transtorno é a informação. "Não acho que essas pessoas queiram ser tratadas diferencialmente por seus colegas ou gestores. O problema é que a maioria nem sabe porque age dessa forma impulsiva ou porque são tão desorganizadas, apesar de inteligentes. Uma grande ajuda seria a divulgação dos sintomas do distúrbio e as formas de tratamento para que elas saibam que é possível controlar sua impulsividade, planejar-se e viver com mais qualidade de vida", analisa o professor.

Lima chegou ao diagnóstico de DDA após ler uma matéria num jornal sobre mau humor crônico. Pesquisando, depois, na internet sobre o assunto, chegou às características dos portadores de DDA e procurou um tratamento especializado. O economista conta que sempre foi uma criança muito agitada e um adulto "muito estressado". Qualquer coisa alterava seu humor. "Brigava até comigo mesmo quando me olhava no espelho", brinca. "Quando recebia um elogio não acreditava que era sincero e tinha a sensação de ser uma fraude que a qualquer momento poderia ser descoberta", descreve. Apesar desses sintomas, Lima diz que sempre teve estabilidade no trabalho, mas isso lhe custava um esforço redobrado para encobrir suas limitações. Outro sintoma apontado por ele é que mesmo quando em sua vida tudo parecia estar calmo, ele achava que algo muito ruim estava para acontecer.

Antonio LarghiO economista André Lima: agitado desde criança
O tratamento de Lima foi uma combinação de psicoterapia com medicamento. "Ainda tento fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mas aprendi a lidar com meu potencial e hoje gosto de ser DDA. Penso que não gostaria de ser o que se chama de uma pessoa 'normal'", conclui.

Para K.M.D, pesquisador da USP e professor de Ciências da computação em uma faculdade particular de São Paulo, o diagnóstico e o tratamento só ajudaram a sua produtividade. "Já havia feito terapia por algum tempo, mas continuava com sintomas físicos muito fortes e uma dispersão que impedia meu bom rendimento. Tinha muita sonolência e assumia muitas responsabilidades ao mesmo tempo. Quando percebia, já estava sobrecarregado e começava a ficar angustiado", lembra. A gota d´agua no caso de K.M.D. foi a tese de mestrado e a chegada do primeiro filho. "Minha desorganização e a impulsividade de trabalhar com muitos projetos concomitantemente, sem tempo suficiente, tornaram visível que eu conduzia minhas atividades de forma compulsiva", conta o pesquisador.

Com o medicamento, a principal mudança para K.M.D. foi a capacidade de concentrar-se em uma coisa de cada vez, fixar metas e horários para cada atividade. Além dos sintomas comportamentais, o caso de K.M.D. se encaixa perfeitamente no diagnóstico físico do distúrbio: quando tinha apenas um ano de idade, ele caiu do primeiro andar da sacada de seu apartamento e bateu justamente a parte frontal da cabeça, um dos motivos para o hipofuncionamento dessa região do cérebro.

Em seu livro Mentes Inquietas, da Editora Gente, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva prevê um cenário muito promissor para os portadores de TDAH no que denomina sociedade pós-industrial. O motivo, para ela, é que o cenário econômico mostra cada vez mais que há uma redução dos trabalhos mecanizados e repetitivos e uma demanda cada vez maior por profissionais intelectualizados, criativos, que trabalhem com sua intuição. "Os postos de trabalho, criados de agora em diante, exigirão que as pessoas pensem, criem, se inspirem, se emocionem, raciocinem, opinem, discordem, se apaixonem, detestem;enfim, que tenham um trabalho verdadeiramente humano, que só pode ser consebido pelos que possuem mentes e corações, cognições e sentimentos" escreve a psiquiatra. Ana Beatriz faz a distinção: a criatividade não é um monopólio dos DDAs, mas essa nova configuração do trabalho pode ser um lugar confortável para suas habilidades.