tdah logo

cleide heloisa partel

Pais com TDAH

texto elaborado por Cleide para palestra dada no III Congresso Internacional da ABDA

Atendo em meu consultório além dos adultos que já sabem que têm o transtorno, pais que me procuram pelos problemas de seus filhos.
Muitos só descobrem que têm o transtorno durante a avaliação do próprio filho(a). Eles nunca perceberam em si as características do TDAH.

Geralmente chegam preocupados, cheios de receios em função dos diagnósticos mal feitos e das publicações equivocadas a respeito do transtorno, e principalmente da medicação. O diagnóstico é feito através de avaliação clínica: nas crianças com a ajuda dos pais, professores e pessoas que ajudam a cuida-las.
Nos adultos através da avaliação de sua estória de vida. Muitos profissionais que pouco conhecem do transtorno, ainda insistem em exames como eletro encefalograma, ressonância magnética, etc.

Além das condições neurobiológicas funcionais do TDAH que determinam os graus diferentes de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade, há uma imensa variedade de sintomas decorrentes de como esse indivíduo foi acolhido e estimulado desde os primeiros dias e anos de vida.

O maior problema do indivíduo com TDAH é a falta de auto–controle, a dificuldade que ele tem em gerenciar o próprio comportamento.
Geralmente reage de forma espontânea e inconseqüente diante de cada situação (Ahhh!!!Mas eu falei a verdade!!!)

Com a incapacidade de inibição do comportamento, de elaborar o pensamento antes de responder, de agir, a questão da temporalidade fica comprometida: há uma dificuldade em aprender com o passado e de antever e planejar o futuro.

Com essas características, fica muito difícil para pais com TDAH planejar e executar estratégias na a educação de seus filhos: Mas então....


- Como ensinar o que ele mesmo não sabe?
- Como ser eficiente em comunicar instruções, regras, limites, se a própria pessoa é dominada pela falta de controle, impaciência e irritabilidade?

É sempre importante que nós, enquanto pais e portadores de TDAH, nos lembremos que há uma razão maior pela qual devemos dominar nossos impulsos, separando fatos, comportamentos de sentimentos pessoais.


(coisas dificílimas para qualquer TDAH!!!).

Mesmo sabendo o quanto pode ser desgastante educar uma criança com TDAH, nosso objetivo nunca deve ser esquecido:

Criar condições para que essa criança ou adolescente se relacione de uma forma saudável com o mundo.

Ainda vale aquela velha orientação dada nos aviões pelos comissários antes dos vôos e deve ser usada pelos pais com TDAH:

“Em caso de despressurização, se estiverem acompanhados de crianças, 1º coloquem as máscaras em si para depois colocá-las nas crianças.”

O conhecimento do transtorno e o tratamento, são fatores fundamentais para pais com e de TDAH. Muitas vezes o comportamento da pessoa não reflete sua vontade própria e sim a vontade dos seus impulsos descontrolados, gerando culpa, falta de confiança em si, e baixa auto-estima.

O adulto com TDAH pode ter diversas conseqüências desagradáveis em seus relacionamentos, em seu mundo profissional mas com certeza seu maior desafio vai ser em educar de forma construtiva seus filhos.

Se pais com TDAH não se tratarem, acontecerá um efeito dominó.

Em virtude dos fatores neurobiológicos funcionais dificultarem o auto-controle, a criança necessita desenvolver uma estrutura interna sólida, através de um diálogo interno de auto controle, para que não fique á deriva ou prisioneira dos eventos de cada momento.

Para isso, ela deve ser adequadamente motivada a seguir objetivos sem que a sedução de um desejo a distraia a toda hora.
Conquistar a gratificação deve ser mais importante do que aquele desejo do momento (respeitando sempre a proporção de 3 elogios/gratificações para cada crítica/punição, onde a punição deve ser a perda de um privilegio).

Essa estrutura é desenvolvida desde os 1ºs dias de vida de um bebê, e está ligada diretamente ao relacionamento que essa criança tem com seus pais ou cuidadores.
O suporte dos pais fará toda diferença no desenvolvimento do potencial dessa criança que com certeza será um adulto mais feliz no futuro.

O bebê tem necessidade vital de um alicerce familiar amoroso, estimulante e seguro para que sua auto estima seja desenvolvida e a criança aprenda à:

- aceitar-se: para isso ela deve sentir-se aceita e respeitada desde o nascimento, mesmo quando comete erros.

- amar-se: deve sentir-se amada e desejada desde o nascimento, independente de suas dificuldades.

- confiar em si e no futuro: deve desenvolver uma estrutura com diálogo interno sólido de auto-controle, de auto-apoio.

- ter o poder do comando de si: com bom senso e flexibilidade, de refém dos acontecimentos externos, a pessoa passa a ser criadora da sua realidade, podendo determinar metas, objetivos, sem medos, sem culpas.

Com essa base amorosa, essa criança terá uma estrutura sólida para lidar com suas dificuldades, além dos rótulos e discriminações que podem vir ao longo da sua vida.

Quando o ambiente familiar oferece um alicerce amoroso, estimulante, seguro, torna-se mais fácil a colocação de limites, e a regulação do auto-controle.

Eu pessoalmente criei meus filhos partindo do princípio:

“É muito mais fácil decepcionar quem não confia em nós do que decepcionar quem confia em nós!”

A criança com TDAH não tem problema de aprendizado e sim de realização, onde o comportamento inibitório é um fator fundamental no desenvolvimento das nas funções atencionais, funções executivas(FE), no controle dos impulsos, na disciplina e na organização, que são características básicas e necessárias:
no aprendizado, na realização de qualquer tarefa, e no convívio social..

O comprometimento das funções executivas,resulta em indivíduos desinteressados, deslocados, desmotivados, entediados, indolentes, desorganizados, sem perspectivas de realizações, de comprometimento com coisa alguma, muito menos com sua vida.

O portador de TDAH que tiver desenvolvido as funções executivas, pode ter sucesso acadêmico e profissional, apesar das dificuldades decorrentes do TDAH.

Pais impacientes, irritadiços, sem auto-controle, caso não se tratem podem facilmente cair em

Polaridades:

- Fazendo tudo pelos seus filhos (para que saia tudo do seu jeito, no seu tempo), mimando-os, incapacitando-os.
O apoio dos pais nos estudos e tarefas deve ser de supervisão e nunca de fazer pelo filho(a). Toda vez que fazemos por uma criança o que ela já tem condições de fazer, e é dela a responsabilidade, passamos uma mensagem subliminar de incapacitação e de infantilização. Quanto mais mimada a criança é, mais incapacitada se torna.

Ou

-Perdendo o controle com facilidade, irritando-se, berrando, castigando sem recompensas, esquecendo-se que são educadores, rotulando muitas vezes com marcas para toda uma vida. Essas crianças tendem a se tornar rebeldes e hostis.

-Outros pais ainda, desistem diante das dificuldades de seu(s) filho(s), delegando a responsabilidade da educação deles para a babá, psicólogos e professores.
E pior, justificam para si mesmos sua ausência com presentes, como se eles pudessem substituir a presença e o amor dos pais.

Pais com TDAH têm a responsabilidade de buscar ajuda para receber orientação, conhecer profundamente o transtorno e tratar-se para ter condições de discutir a questão em casa.

É muito importante uma aliança de cooperação, onde experiências negativas e positivas possam ser compartilhadas em família para ajudarem no processo de melhora.

No meu consultório tenho obtido melhores resultados quando trato da criança indiretamente, através do processo terapêutico de seus pais, mãe, ou quem cuida da criança, trabalhando a dinâmica familiar. Isso por si só já alivia a criança de ser o foco do problema, ajudando na sua auto-estima.

Finalmente, pais com TDAH devem sempre se lembrar (deixando isso claro para seus filhos) de que:

Certos comportamentos inadequados são indesejáveis,
nunca eles, os filhos!

ABDA® Todos os direitos reservados. Copyright 2013.