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cleide heloisa partel

INSPIRAÇÃO MOFADA

Com enfado, sinto o cheiro do mofo. Inspiro mais forte. O tédio invade. Entra pelas narinas e escorre na pele. Transpiro terror. Exalo agonia. É inércia do nada que não dá folga. Não se interrompe, apenas corrompe. Uso a almofada como salva-vida nesse marasmo. Dentro dessa modorra que castiga, não vejo horizonte. Vejo as janelas fechadas no quarto escuro. Abro-as e vislumbro o nada em um só desalento. Volto à escuridão que se repete em minha vida Deito, pois estou exausta de nada fazer. A mente enferrujada que não quer pensar, Não para fazê-lo. Enlouquece em meio a tanta desordem. Perde-se como esse registro se perderá, Salvo, seja salvo por uma pasta amarela. Dentro dela há uma esperança de organização infante. Inspiração crescente poderá crescer não se sabe para onde. Hoje vazia, a virgem pasta amarela, recebe incólume, Esse antigo e velho anseio inacabado.

INSPIRAÇÃO MOFADA, meu poema lema do DDA, abrirá esse depoimento. Este poema que está publicado na quarta antologia da AJEB (Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil), de que faço parte, contempla sensações, ora fugazes, ora duradouras, relativas ao Distúrbio do Déficit de Atenção. Mas vejam que curioso! Escrevi o poema em 1997. Pincelei-o com tintas presentes em minha alma naquele momento, mas que hoje vejo que são as cores do DDA, sigla que desconhecia até o mês passado (junho de 2002), quando me deparei com uma pequena nota científica na revista VEJA, da psicóloga Cleide Heloisa Partel.

Na realidade, quando escrevi o poema estava em uma de minhas piores crises de depressão, acompanhada de um recém diagnóstico de um outro distúrbio estranho: a Fibromialgia, na época ainda não tinha sido descrita a etiologia desse distúrbio (disfunção). Estava em um barco, afundando com dores no corpo físico e dores na alma, sem remos e sem vontade de nadar.

Mas momentos passam e tanto a depressão bipolar (também, perversamente conhecida como PMD), como a Fibromialgia se volatizaram (mas não se foram) sob os adequados tratamentos a que me submeto até hoje.

Restaram alguns ingredientes constantes, para os quais ainda não encontrei tratamento: a falta de foco, de atenção, de concentração e de organização, temperados com uma boa pitada de preguiça. Tenho me prejudicado muito com essas "faltas". Perco tempo, perco chave, perco tudo. Passo vergonha, atraso-me, comprometo-me, confundo-me, não me aprofundo.

Foi nessas circunstâncias que procurei Dra. Cleide/Dr. Rubens.

Descreverei agora, um dia na vida do DDA.

Marquei com a Luciana, secretária do Dr. Rubens, uma consulta para as 10h de uma tal sexta feira. Não poderia esquecer. Coloquei bilhete na geladeira, na escova de dente, no meu local de trabalho, pois se marco na agenda, corro o risco de esquecê-la. Tenho que afixar os recadinhos para mim mesma, em lugares pelos quais eu vá passar e olhar. Mesmo assim, às vezes olho e não vejo.

Ligo para Daniela, logo de manhã, perguntando se o Dr. Rubens estava atrasado ou não. Disse-me que não. Gelou minha barriga, pois eu não poderia me atrasar. Pego o endereço do consultório e vou para o trabalho. No caminho, dou-me conta de que esqueci o celular. Eu que estava torcendo, desde cedo, para que eu não viesse a precisar do aparelho, enganei-me. Doce ilusão.

Após uma reunião densa no trabalho, em que eu me afligia com o passar do tempo e não conseguia me concentrar, nem no que discutíamos, nem no fato de não saber onde tinha colocado o pequeno pedaço de papel com o endereço do médico que eu precisaria para chegar até lá. Torturante, angustiante minha paisagem interna. Encerrada a reunião, saio correndo para pegar minha bolsa, com a chave do carro. É óbvio que quando chego no carro, não acho a chave que havia deixado no escritório e que, por conseguinte, me faria atrasar mais alguns minutos para ir buscá-la.

No momento seguinte, já em direção à Rua Sampaio Vidal, percebo que não peguei o pedacinho de papel, que me contaria o número dessa rua ao qual eu deveria me dirigir. Abro a bolsa para pegar a agenda, com o telefone, para que Daniela, me refrescasse a memória, dizendo-me o número que eu tinha lido no papel, mas que apesar de me lembrar da posição e da minha horrível letra escrita nele, não me lembrava do que exatamente, estava escrito.

Tive a brilhante idéia de ir e voltar nessa rua, procurando alguma placa com o nome da clínica. Nada de placa. Nessa Clínica não há placa em frente.

Fui em direção à Avenida Faria Lima. Um quarteirão antes de chegar nela, parei em uma padaria e pedi ao padeiro que me ligasse para Daniela para, finalmente, eu pegar endereço completo.

Chegando na antesala, sentei-me após pagar os honorários do médico e lhe escrevi uma dedicatória no livro com o qual lhe faria um presente. Coloquei dentro de um dos dois sacos plásticos que carregava comigo, com vasta e pesada bibliografia que levo para me dar segurança.

Entro na sala, Dr. Rubens olha-me de soslaio. Devia estar pensando, "o que essa louca traz dentro desses plásticos gigantescos e desajeitados?"

Bem, enquanto eu desatava a falar, continuava me esforçando, mexendo na papelada dentro das sacolas. Senti a necessidade de justificar meu jeito atrapalhado de ser e comentei: "Acho que pirei, pois acabei de dedicar um livro meu para você, e não consigo achar. Será que deixei no banheiro?" Aí, eu pensei melhor e lembrei que eu não tinha ido ao banheiro. Mas tudo bem, "faz parte" do quadro. Ele comentou que eu era DDA típica.

Tivemos uma excelente consulta. Ele me escutou, pacientemente, pois cheguei com uma lista de defeitos meus, acompanhada por uma outra descrição como esta, acerca de cinco minutos quaisquer em minha vida.

Foi assim, que eu, D. (42), engenheira, com mestrado em Ecologia e Recursos Naturais, ambientalista, poeta e escritora fui diagnosticada como uma DDA típica.