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Férias hiperativas

Aproveite a maior convivência com seu filho nas férias para observar como ele se comporta. É um período estratégico para diagnosticar a testar a suspensão do tratamento.
Por Leandro Quintanilha


Muitos dos pestinhas que você conhece não são só levados. E muitas das crianças avoadas da sua família podem não ser apenas sonhadoras. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade TDAH é o distúrbio comportamental mais comum na infância: estima-se que cerca de 5% dos meninos e meninas tenham a doença. E as férias são um período oportuno para que os pais, convivendo mais de perto, identifiquem os sintomas. Ou testem a possibilidade de que crianças já em tratamento possam viver sem a medicação.

O TDAH, muitas vezes confundido com molecagem ou preguiça, é uma doença neurobiológica de base genética que reduz a atividade na parte do cérebro relacionada à atenção, o córtex pré-frontal. Os sintomas: desatenção, inquietude e impulsividade. "Mas é preciso cuidado para não se banalizar o diagnóstico", adverte o neuropediatra Paulo Breinis, chefe do setor de Neurologia Infantil do Hospital São Luis e do Hospital Estadual Darcy Vargas. Para se considerar uma pessoa portadora de TDAH, é necessário que ela sofra, desde pequena, de ao menos seis sintomas da doença (faça o teste abaixo).

Isso mesmo. A maioria dos pestinhas que você conhece são só levados, assim como a maior parte das crianças avoadas da sua família são apenas sonhadoras. Mas as crianças com TDAH precisam ser diagnosticadas e tratadas para que a doença não arruíne a vida escolar - e a auto-estima. Breinis explica que a criança com o distúrbio pode sofrer isoladamente desatenção ou hiperatividade, mas é mais comum que tenha os dois. Cerca de 30% dessas crianças acabam repetindo de ano na escola e mais da metade delas necessita de acompanhamento pedagógico adicional.

Alessandra foi diagnosticada aos 8 anos. "Sempre percebi que havia algo errado com ela", diz a mãe, Suely Figueiró. "As professoras reclamavam que Alê não parava quieta na carteira e vivia derrubando os objetos." A quarta série, teve de repetir. Em casa, Suely notava que nenhum brinquedo entretia a menina por mais de dois minutos. Foi quando a mãe ouviu um psicóloga falar sobre TDAH num programa de rádio. "Com o tratamento, ela ficou mais tranqüila, melhorou na escola e fez até mais amigos."

TDAH se trata com o estimulante metilfenidato. Estimulante para hiperativos? Parece um paradoxo, mas faz sentido quando se entende como funciona: a substância estimula o funcionamento do córtex pré-frontal, o que ajuda o paciente a controlar seus impulsos e a focar a atenção. O efeito dos comprimidos da versão mais barata - cerca R$ 13 a cartela com 30 - dura quatro horas, em média. As versões de maior duração (até 12 horas) podem chegar a R$ 200. "Todos funcionam bem, o importante é que o médico ofereça opções para que a família escolha a mais adequada a seu orçamento", diz Breinis.

"Quando o efeito passa, é visível a modificação do comportamento", avalia o engenheiro químico Norberto Schneider, 40, pai de Marco Antônio, 11. "Ele fica agitado, fala mais alto e não presta atenção no que a gente diz." O estimulante é um paliativo: resolve temporariamente o problema e oferece condições de se levar uma vida praticamente normal.

Apesar de requerer receita amarela, controlada pela Anvisa, o estimulante é considerado seguro e não causa dependência. "Há efeitos colaterais como diminuição do apetite, dor de cabeça e taquicardia, entre outros, mas apenas numa pequena parcela dos usuários", afirma o psiquiatra Ênio de Andrade, diretor do Ambulatório de TDAH do Hospital das Clínicas HC.

O ideal é que, com o amadurecimento, o paciente aprenda a se controlar sozinho. E é nas férias que os pais podem fazer o teste, suspendendo o medicamento. A criança começa o ano letivo sem o remédio e, se estiver se virando bem, não precisa voltar a tomá-lo.

O acompanhamento psicológico pode ser decisivo.

"A medicação ajuda a manter foco; a psicoterapia fortalece a auto-estima e ensina o paciente a se controlar melhor", afirma a psicóloga comportamental Cleide Heloisa Partel.

A medicação é ótima, mas claro que o melhor é não precisar dela.

O princípio ativo do elogio

TDAH é uma doença. Nada de tachar a criança de bagunceira ou distraída.

Ao dar uma informação, seja objetivo. Peça a seu filho que repita o que foi dito.

Programe atividades para as férias e mantenha horários de dormir e comer.

Reconheça o esforço e elogie cada evolução. Isso dá mais resultado que criticar o que dá errado.

Há tantas meninas com o distúrbio quanto meninos, mas elas costumam ser só desatentas, o que atrasa o diagnóstico.

A TDAH pode estar associada a outra doença, como depressão, ansiedade e dislexia, entre outros. Nesses casos, o tratamento deve ser mais específico.

70% das crianças com TDAH continuam com o distúrbio na vida adulta. Dependência química, instabilidade profissional e dificuldade de manter relacionamentos podem derivar disso. O tratamento é o mesmo para os crescidos. (SERVIÇO)

Há quem use a dispersão e o pensamento caótico do TDAH a favor da criatividade.
Por isso, a doença é conhecida como o distúrbio dos gênios.

Leonardo Da Vinci

Pintor (e inventor) brilhante, escrevia de trás para frente e deixou várias obras inacabadas

Mozart

Compositor inigualável, foi expulso da faculdade por faltas injustificadas e desatenção

Thomas Edison

O inventor da lâmpada era considerado atrasado na escola. A mãe educou sozinha.

Albert Einstein

Físico visionário quando adulto, demorou para aprender a falar só foi alfabetizado aos 9 anos

Não basta ser levado para ter TDAH

Nem toda criança agitada ou distraída sofre de desatenção e hiperatividade. Para saber se é o caso do seu filho, marque os itens abaixo que correspondem ao comportamento dele Desatenção

1. Presta pouca atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares ou de casa. ( )

2. Tem dificuldade de manter atenção em tarefas ou atividades lúdicas. ( )

3. Com freqüência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra. ( )

4. Em geral, não segue instruções nem termina seus deveres escolares - e isso não acontece por rebeldia nem por incapacidade de compreensão. ( )

5. Sente dificuldade em se organizar ou planejar atividades com antecedência. ( )

6. Reluta em fazer o dever ou em iniciar tarefas que exijam esforço mental constante. ( )

7. Com freqüência perde coisas necessárias para tarefas escolares ou atividades lúdicas (brinquedos, lápis, óculos etc.). ( )

8. Distrai-se com muita facilidade com coisas à sua volta ou mesmo com seus próprios pensamentos. Parece sempre "sonhar acordado". ( )

9. Esquece coisas no dia-a-dia, compromissos, datas, etc. ( )

Caso tenha respondido afirmativamente a 6 ou mais destas questões, é provável que seu filho sofra de déficit de atenção.

Hiperatividade / Impulsividade

1. Move de modo incessante pés e mãos e/ou se remexe na cadeira. ( )

2. É comum abandonar a cadeira em sala de aula ou em outras situações nas quais se espera que permaneça sentado. ( )

3. Corre ou escala móveis em situações inapropriadas (em adolescentes, isso pode se restringir a uma sensação de inquietação, de energia nervosa). ( )

4. Sente dificuldade de brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer, como jogos de tabuleiro, por exemplo. ( )

5. Parece ser movido por um motor elétrico, sempre "a mil por hora". ( )

6. Fala demais. ( )

7. Responde precipitadamente, antes das perguntas serem concluídas. É comum responder a uma questão de uma prova sem lê-la até o final. ( )

8. Tem dificuldade em aguardar a sua vez em jogos, na sala de aula, em filas, etc. ( )

9. Costuma interromper os outros em suas atividades, brincadeiras ou conversas. ( )

Se respondeu afirmativamente a 6 ou mais destas questões,é possível que seu filho sofra de hiperatividade.

Atenção: É necessário que a criança ou o adolescente tenha 6 ou mais dessas características desde pequena(o), para o diagnóstico em ao menos um dos tipos de TDAH. Se tiver 6 ou mais em cada, seu filho pode ter TDAH do tipo combinado (sofre de desatenção e hiperatividade ao mesmo tempo).

Este teste foi adaptado do site www.universotdah.com.br, mantido pela psicóloga Cleide Heloisa Partel. Lá é possível encontrar também uma versão do questionário para adultos.