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O especialista fantasma

A edição de 30 de outubro de 2006 de ÉPOCA traz o artigo A Doença Fantasma, de SUSAN ANDREWS, psicóloga que é monja iogue e que critica o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) com medicamentos. Vamos aos comentários dela, devidamente respondidos por Dr. Paulo Mattos em nome da ABDA:

1) “Desde quando esses comportamentos infantis, variando de normais a indisciplinados, se tornaram uma doença?”

ABDA: desde o século XIX, Sra. Andrews, quando autores não-médicos identificaram comportamentos numa minoria de crianças que não eram observados na grande maioria delas. O diagnóstico de TDAH é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) há pelo menos 20 anos. Existem diagnósticos como câncer e hepatite, nos quais você está no grupo dos que “não têm” ou no dos que “têm”. Muitos outros diagnósticos são determinados arbitrariamente a partir de certo ponto, embora todo mundo tenha em algum grau aquelas características, como é o caso do TDAH. Não existe o grupo dos “desatentos” e dos “completamente atentos”, é uma questão de grau, do mesmo modo que ocorre com diabetes, hipertensão arterial e obesidade.

2) “Não há nenhuma evidencia que ele esteja associado a uma disfunção física do cérebro”.

ABDA: existem pelo menos 100 artigos científicos (inclusive com fotografias comparando o cérebro de portadores de TDAH e de indivíduos normais) disponíveis na literatura cientifica. Possivelmente, a Sra. Andrews não assina nenhuma revista científica ou não tem acesso à internet do seu templo.

3) “No Brasil estima-se que o TDAH atinja de 3% a 6% de crianças em idade escolar. Mais de 1 milhão de caixas foram consumidas em 2005. Virou moda no Brasil (...)”.

ABDA: além de não conhecer nada de TDAH, a Sra. Andrews é fraca em matemática. A caixa de metilfenidato, usado no tratamento para TDAH, tem 20 comprimidos cada um com 10mg. Se a dose média é de 30mg, uma criança consumiria aproximadamente 5 caixas por mês e 50 caixas por ano (supondo que não seja usado nas férias). Se os dados do IBGE informam que existem 55 milhões de brasileiros com idades de 1 a 14 anos, significa que só são tratados 20.000, para um total de portadores de, no mínimo, 1 milhão e meio (!). Temos, portanto que aumentar nossos esforços para que mais pessoas sejam diagnosticadas e tratadas.

4) “(estas crianças) estão sendo sedadas”

ABDA: o grau de desinformação da Sra. Andrews é impressionante: os medicamentos usados no tratamento do TDAH são estimulantes e não causam nenhum tipo de sedação.

5) “(estes medicamentos) podem provocar danos cerebrais permanentes e irreversíveis (...)”.

ABDA: A Sra. Andrews tem a obrigação moral de informar imediatamente as autoridades de vigilância sanitária do Brasil e do mundo acerca destes estudos científicos, que aparentemente só ela conhece.

6) “Imagine agora se Winston Churchill – ganhador do Prêmio Nobel – tivesse sido sedado com drogas para hiperatividade”

ABDA: realmente, se o seu filho tiver a inteligência e a capacidade invejável de Winston Churchill, a leitora não precisa se preocupar caso ele tenha TDAH, fobia, dislexia, depressão ou qualquer outra coisa. TDAH ocorre em qualquer indivíduo, à semelhança da epilepsia, por exemplo, e isto em nada modifica a necessidade de se tratar a doença na população.

Por fim, consultando a base de dados PubMed, a maior ferramenta de busca de pesquisas científicas do mundo, descobrimos que a Sra. Andrews jamais publicou uma única pesquisa científica sequer sobre o assunto.

A ÉPOCA inaugurou as colunas assinadas por especialistas fantasmas...

Paulo Mattos
Professor de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Presidente da ABDA – Associação Brasileira do Deficit de Atenção.