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O que é disfunção executiva

Barkley (1997) propôs uma teoria unificadora para explicar as disfunções observadas no TDAH. A proposição é pautada em uma alteração central no córtex pré-frontal que compromete a capacidade adaptativa da função executiva.

O paciente com TDAH tem dificuldade em organizar-se para atingir metas, em administrar seu tempo, em fazer um planejamento de suas atividades, em seguir um planejamento, finalizar tarefas previamente iniciadas e dificuldades em manter a autonomia e independência para desempenhar suas rotinas.

Essa “alteração-chave” seria um déficit na capacidade de inibir respostas, o que explicaria os vários tipos de manifestações e comprometimentos no TDAH.

As funções executivas podem ser divididas entre quatro subconjuntos (Lezak et al., 2004):

1- A volição é a capacidade de estabelecer objetivos. Para essa formulação intencional, é necessária a motivação e consciência de si e do ambiente.

2- O planejamento é a capacidade de organizar e prever ações para atingir um objetivo. A habilidade de planejar requer capacidade para tomar decisões, desenvolver estratégias, estabelecer prioridades e controlar impulsos.

3- A ação intencional é a efetivação de um objetivo e planejamento, gerando uma ação produtiva. Para isso, é necessário que se inicie, mantenha, modifique ou interrompa um conjunto complexo de ações e atitudes integrada e organizadamente.

4- O desempenho efetivo é a capacidade de automonitorar, autodirigir e auto-regular a intensidade, o ritmo e outros aspectos qualitativos do comportamento e da ação, ou seja, é um controle funcional.

A realização de tarefas diárias e o convívio social adequado requerem a integridade das funções executivas. O desenvolvimento dessas funções durante a infância proporciona gradualmente a adequação e o melhor desempenho da criança para iniciar, persistir e completar tarefas.

A síndrome disexecutiva é caracterizada pela incapacidade das funções executivas em processar e elaborar ações adaptadas (Baddeley e Wilson, 1988).

Essa disfunção pode se apresentar com uma ou várias dificuldades práticas que impactam o cotidiano, como comprometimento da atenção sustentada, dificuldade em iniciar tarefas, empobrecimento da estimativa de tempo, dificuldade de alternar de uma tarefa para outra ou lidar concomitantemente com distintas tarefas que variam em grau de relevância e prioridade, déficits no controle de impulsos e impaciência, problemas de planejamento, distração, pouco insight, inquietação, agressividade, problemas de seqüência cronológica, problemas de inibição de resposta e labilidade motivacional (Powel e Voeller, 2004; Burges e Alderman, 2004).

A constelação da síndrome disexecutiva no TDAH pode apresentar uma variedade de manifestações. Entre elas, freqüentemente ocorre:

1- Procrastinação, ou seja, o indivíduo tende a postergar tarefas, principalmente quando envolvem maior necessidade de atenção ou levam a uma recompensa não a curto, mas a longo prazo.

2- Alternância de tarefas, deixando-as incompletas, em função de uma baixa capacidade de persistir em uma tarefa e uma alta necessidade de “variar”.

3- Labilidade motivacional, apresentando interesse fugaz com necessidade de buscar novidades (o que se relaciona diretamente com a alternância de tarefas, descrita no item anterior).

4- Dificuldade de focalização e sustentação da atenção, revelando maior sensibilidade à distração, com dificuldade para filtrar estímulos internos e externos. Necessita de lembretes para manter uma tarefa habitual, apresentando inconstância e abandono precoce de tarefas.

5- Dificuldades de organização e hierarquização, apresentando problemas para estabelecer prioridades e distinguir importâncias.

6- Menor velocidade de processamento.

7- Manejo deficiente da frustração e da modulação do afeto, apresentando baixa tolerância e limiar para frustração com baixa auto-estima, hipersensibilidade a críticas e irritabilidade.

8- Deficiência de memória de trabalho com dificuldade de manipular informações verbais e não-verbais em curto espaço de tempo, e seguimento de seqüências.

9- Deficiência de memória prospectiva, gerando esquecimentos de responsabilidades e objetivos estipulados.

Os sintomas de desatenção são duradouros e estão associados no comprometimento de funções executivas adaptativas (prejuízo nas esferas social, ocupacional e educacional).

(resumo do artigo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria - J. bras. psiquiatr. v.56 supl.1 Rio de Janeiro 2007)
Eloisa Saboya, Dagoberto Saraiva, André Palmini, Pedro Lima, Gabriel Coutinho.